29/09/2008

O pacotão do Tio Sam furou - pormenores da democracia americana

A criação de uma empresa pública que absorva os podres do sistema financeiro americano foi para já recusada no senado. E para bem dos americanos, que pelo menos para já sabem que não vão pagar os erros dos bancos que foram demasiado gananciosos.

Já a democracia americana ficou transformada num triste espectáculo e ficou bem patente como funciona. Cada senador votou, como lhe competia, sim ou não ao pacotão. No final do tempo estipulado, fez-se a contagem e, quando se esperava que tudo estivesse terminado, quando os votos estavam já todos contados, surgiu um período pós-voto inacreditável, que mais parecia digno de uma ditadura e que consiste em pressionar mentalmente os votantes da facção ganhadora a mudar o seu voto, com todo o tipo de argumentos que entenderem. Pelo que dizia o comentador da CBS, uma das estratégias era fazer ver aos democratas que votaram pelo não que estavam a votar contra a maioria do seu partido e em que situação arriscada se estavam a colocar dentro do seu próprio grupo político. Outra estratégia consistia em fazer ver aos partidários do não como podiam eles arriscar ser eles os culpados das enormes perdas de Wall Street que iriam ocorrer se o não vencesse. Grupos de partidários do sim, seleccionaram um senador que entenderam que houvesse votado no não e partiam com esta pressão mental inaceitável pós-voto para cima dele em bandos. Enfim, ficou-se a saber que depois do voto, na democracia americana, os votantes ficam à mercê dos ataques dos demais durante um tempo. Estranha forma de democracia onde as coisas não se ficam pelo voto. Já tinhamos visto que também não é necessariamente o candidato mais votado no país aquele que se torna presidente, agora sabemos do que ocorre no senado a seguir à contagem dos votos.

A Arte pela Escrita

É com prazer que tomo parte juntamente com um conjunto vasto de outros autores na Colectânea A Arte pela Escrita.

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São 37 autores, no total, oriundos do Minho ao Algarve, passando pelas regiões autónomas e pelo Brasil. Uma montra do que, em prosa e poesia, se vai fazendo em língua portuguesa.

O lançamento acontece no dia 4 de Outubro, pelas 14h30 no Clube Literário do Porto.

25/09/2008

Contornos de Guerra Fria

Se os americanos resolveram colocar mísseis na Polónia voltados para a Rússia (alegando ser uma atitude de defesa) agora chegou a oportunidade da Rússia contra-atacar através da Venezuela. E resta saber quanto tempo mais os americanos a braços com uma enorme crise, falando em planos de 700 biliões de dólares para recuperar a economia, como conseguirão eles continuar a manter as suas estruturas militares com a mesma abrangência que têm tido pelo mundo fora. O déficit americano não é poço sem fundo com certeza.

22/09/2008

O Pacotão do Tio Sam (2)

As perdas são nacionalizadas, os ganhos são privatizados. É o que se ouve com frequência sobre o que está a acontecer em Wall Street.

O que também se ouve é que o socialismo está a tomar conta dos E.U.A. com as crescentes nacionalizações e intervenções do Governo na economia americana. Será isto uma espécie de pequena vitória moral dos russos anos depois de se pensar que tinham perdido a guerra fria? Cá para mim, acho que nesta altura do campeonato não há ideologia nenhuma que resista, só uma vontade de salvar quem investiu mal e com demasiada ganância alegando que não o fazer é deixar cair o apocalipse sobre os americanos.

Enquanto isso o que mais parece estar a subir com o advento do "pacotão" é o petróleo, a subir 20%. Como as petrolíferas são sempre mais rápidas a subir do que a descer preços, não me admiraria nada ver ainda esta semana uma valente subida na gasolina e no gasóleo.

O Pacotão do Tio Sam

Os republicanos propõem o "pacotão" para salvar a economia americana que, segundo artigos recentes, pode ascender a 1 trilião de dólares. Tudo para comprar títulos podres com dinheiro do Tio Sam, ou seja, dos contribuintes americanos. É isso ou o apocalipse, dizem os republicanos. No pacote, para já, não há um tostão para o cidadão americano em sérias dificuldades embora os democratas demonstrem vontade de o fazer.

O interessante é que o líder desta proposta, o secretário do tesouro Henry Paulson, o equivalente ao Ministro das Finanças americano, com uma fortuna avaliada em torno de $700 milhões foi CEO do Goldman Sachs, um desses bancos de investimento que agora o Tio Sam irá ajudar, e de lá transitou para secretário do tesouro.

Tudo isto nas vésperas de eleições.

17/09/2008

Tributo a Richard Wright

A Richard Wright, teclista e membro fundador dos Pink Floyd, este vídeo em sua homenagem que encontrei no Youtube. Ao ouvir uma vez mais esta grande música veio-me isto à ideia: o homem tem tempo limitado nesta Terra mas a sua obra não.

Os preços dos combustíveis...abusos

As petrolíferas portuguesas andam a abusar. Todas as semanas têm uma razão, um trunfo qualquer na manga para evitar descer os preços dos combustíveis e, inclusivamente subi-los como acontece hoje.

Se calhar (e isto é um impressão meramente pessoal) estão a medir mal o poder que têm sobre os consumidores...é só uma impressão, mas estes abusos, como acontece frequentemente a quem abusa, podem acarretar consequências. Parece-me que a continarem as coisas assim, haverá greves. Hoje, por exemplo, desceram o gasóleo e subiram a gasolina. Será que foi porque os consumidores do gasóleo, são mais organizados do que os utilizadores da gasolina? Será que as manifestações e greves de transportadoras ou dos agricultores estão a produzir efeitos enquanto que o facto de não haver manifestações civis contra os preços das gasolinas, importa? Seja como fôr, a continuar assim, acho que lá virá o tempo das manifestações gerais contra os actuais preços impostos pelas petrolíferas.

12/09/2008

Insultos de Hugo Chávez

Já nos habituamos a ver Hugo Chavez insultar George Bush mas, agora, ultrapassou as marcas ao falar em "yanquis de mierda" e ao mandá-los "al carajo cien veces". Incita até a um certo nível à instauração de um potencial xenofobismo e a um disparatado confronto entre americanos e venezuelanos espalhados por esse mundo. O mínimo que se pede a um político é que saiba distinguir os povos dos seus governantes e que não os ponha todos no mesmo saco ao fazer declarações públicas. No caso, o mínimo que se pede ao Presidente Venezuelano é que saiba a diferença entre George Bush e cada um dos americanos.

Pergunta: será que os Estados Unidos vão continuar a comprar petróleo à Venezuela como têm feito? Isso vai mostrar ao mundo até que ponto os americanos estão desesperados pelo petróleo...

07/09/2008

Aqui fica uma dica de uma optima ferramenta que permite publicar mensagens no blogue (especialmente boa para quem tem mais de um blogue para gerir): w.bloggar.Aqui fica o site que consultei e que bem me informou: http://pontosapo.com/2007/12/01/publicar-um-blog-usando-ferramentas/

29/08/2008

Crise no Cáucaso

As coisas estão a aquecer.

Apesar do modo tendencioso como me parece que a Crise do Cáucaso é apresentada às pessoas aqui no Ocidente, ainda não me convenci que os russos é que são aqui declaradamente os maus da fita e os EUA e a UE é que são os bons. Que necessidade havia da Geórgia atacar a Ossétia do Sul e a Abecázia neste momento? Que papel tiveram os EUA no incentivo dessa acção? Que necessidade havia de colocar mísseis na Polónia voltados para à Rússia, ditos anti-misséis mas que obviamente a Rússia considera ameaçadores? Será que alguem aqui em Portugal achava bem algum dia serem colocados mísseis em Espanha voltados para Portugal, mesmo que fossem chamados anti-mísseis?
Por estas razões acho que a Rússia tem sido estupidamente provocada nos últimos tempos. É como quem anda a provocar constantemente um elefante até que um dia ele se irrita e toma uma atitude.
Mais, o facto da Rússia reconhecer a independência da Ossétia e da Abecázia só veio pôr a nu a hipocrisia da UE e dos EUA ao ter reconhecido o Kosovo na altura e não fazer agora o mesmo. Foi genial da parte dos russos.

13/08/2008

Guerra Rússia-Geórgia: Fantochadas da geopolítica mundial


Parece-me que quem disparou desta feita o primeiro tiro foi a Geórgia apesar de, obviamente, a história ter antecedentes e não poderem estes actos actuais serem apreciados isoladamente na história. Nunca o podem, na verdade. Porém, como a geopolítica internacional está revestida de autênticas fantochadas, a Rússia pode perfeitamente invocar estar a empreender uma guerra preventiva, ou seja, guerra com o intuito de prevenir ataques futuros por parte da Geórgia. O precedente já foi invocado por Israel e pelos EUA inúmeras vezes.

Nada disto, porém importa. A única verdade é que a Rússia quer impôr respeito e a sua influência na Geórgia, bem como no resto do seu perímetro geográfico. O resto é a fantochada de que se revestem as guerras hoje em dia.

Outra fantochada enorme são os Peacekeapers. Agora fala-se de Peacekeapers russos existentes na Geórgia, capacetes azuis com o aval da ONU. Parece que as guerras se burocratizaram hoje em dia. Não há mais soldados e ataques de guerra, mas Peacekeapers e manobras de manutenção da paz. Neste início de séc.XXI as palavras talvez estejam demasiado gastas e prefere-se renovar o seu sentido usando o campo lexical da paz para se falar da guerra.

Como sempre, allheadas a estas fantochadas geopolíticas, estão as vítimas em sofrimento, neste caso os georgianos civis, cujo maior azar é estarem metidos entre interesses russos e americanos e, com um governo, que ao fazer o ataque disparatado que fez, colocou o seu povo, negligentemente e com despeito, em altíssima situação de risco.

A falsa cantora na abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim

Uma cantou e a outra é que apareceu perante as câmaras porque, para que a cerimónia fosse perfeita, era preciso que a voz nas imagens viesse de uma criança bela e mais fotogénica. A imagem da cantora original não foi considerada adequada para um evento de tão grande importância.

É imperioso demonstrar-se que "as nossas crianças" são todas belas e perfeitas. E atenção, isto não me parece que seja problema único da China. Os países querem mostrar ridiculamente, nas cerimónias oficiais, que só têm caras e corpos perfeitos porque é, claro, vivemos num mundo que prefere comer as maçãs mais enceradas e não as mais saborosas. Até as crianças convém que nasçam "enceradas". O problema é que este não é um mundo perfeito, é um mundo com defeitos e, se rejeitarmos o defeito, estaremos a rejeitar-nos a nós próprios como seres humanos, cuja essência é sermos carregados de defeitos.

30/07/2008

O véu (crónica de 22/07/2008)

A Turquia, país onde o embate civilizacional é grande e onde Estado e religião se encontram separados desde os tempos de Ataturk é, provavelmente, o país onde Este e Oeste do mundo terão de dar a primeira grande prova a todo o mundo de que podem conviver lado a lado debaixo de uma única identidade nacional moderada e própsera. Dito isto, uma grande parte dos turcos moderados, receia acima de tudo que algum dia se possa regressar aos dias do Império Otomano ou a qualquer tipo de estrutura civilizacional que se pareça ou incline minimamente para os extremos de países como a Arábia Saudita ou o Irão onde, por exemplo, qualquer mulher que saia à rua tem está obrigada a vestir a burqa ou o véu, tudo depende se quer ou não cobrir também os olhos. No âmbito das suas múltiplas reformas, Ataturk alterou a face do país e o véu foi visto como um obstáculo à secularização e à modernização. Hoje em dia, véus e burqas não são perimitidos em locais públicos na Turquia como univesidades ou tribunais, de modo a impedir impreterivelmente o regresso aos anos do islão obscuro. Em 1998, foi banida uma estudante turca da Universidade de Istanbul precisamente porque os usou. Em 2000, há o caso de outra estudante condenada a seis meses de prisão por “obstruir a educação dos outros” ao ter usado véu nos exames finais. Já no decorrer deste ano de 2008, o parlamento turco passou uma emenda à constituição que permitia a utilização de véus nas universidades com o argumento de que muitas mulheres estariam a fugir às universidades. Meses depois, o Tribunal Constitucional da Turquia deu voz aos muitos turcos que se haviam demonstrado contra a emenda e, com base na necessidade suprema de laicização, o dito tribunal retirou a emenda.

Entretanto, na Bélgica, os municípios são livres de impôr a proibição, vários baniram já o uso das burqas e véus ou decidiram cobrar multa a quem os use. O argumento aí é o de que a referida peça de vestuário causa insegurança e intimidação nas ruas ao encobrir e impossibilitar a total visão do rosto da pessoa. Já em França, os argumentos que levam à proibição são que deve ser preservado o valor da laicização e também de que as burqas e véus são símbolos de subserviência das mulheres não coincidentes com a cultura francesa. Enquanto a polémica avança, a vaga parece crescer no sentido da proibição da utilização de véus em locais públicos por toda a Europa e, não seria de admirar que também a Portugal chegasse essa proibição, tal como chegou a de fumar ou a despenalização do aborto. Como sempre, o nosso bloco central apoiará o que se fôr fazendo por toda a Europa e quem discordar será um radical, tendo que contar apenas com o apoio do Bloco de Esquerda. No entanto, aqui fica desde já um relato engraçado que encontrei de uma norte-americana que afirma ter adorado a obrigatoriedade de usar o véu na Arábia Saudita sempre que saía de casa. Diz que andando toda coberta da cabeça aos pés se sentia mais igual às demais e sentia que, finalmente, a sua carreira profissional deixava de assentar, fosse o que fosse, nos seus atributos físicos como acontece nas sociedades Ocidentais.

15/07/2008

10 questões urgentes a debater sobre os media em Portugal

Está a tardar um grande debate sobre o jornalismo em Portugal e sobre o papel dos media. Um debate aberto a todos os portugueses, talvez no formato Prós e Contras ou noutro semelhante. Aqui ficam 10 questões que urge debater:

1. Qual o papel da investigação jornalística nos dias de hoje? Porque há tão poucas peças de investigação jornalística hoje em dia?
2. Porque se repetem tanto as notícias de uns canais para os outros e se multiplicam tanto as opiniões?
3. Qual o papel pedagógico que os media devem assumir nos dias de hoje no nosso país?
4. Porque se encontra tão reduzido esse papel nos telejornais e nas grelhas programáticas actuais? Como combater esses problemas?
5. Qual o lugar do sensacionalismo? Aonde devem situar-se os limites?
6. Até que ponto o jornalismo de hoje vende o medo, o pessimismo ou o cepticismo e como pode isto ser combatido?
7. Poderá a classe jornalística combater as constantes devassas do segredo de justiça que mancham a imagem da Justiça Portuguesa? Que medidas pode e deve tomar?
8. Como deve o jornalismo encarar o futebol?
9. Qual o papel da televisão pública e qual o das privadas?
10. Quais devem ser as linhas fundamentais para um jornalismo de qualidade no século XXI?

Este debate seria benéfico para todo o país dado o papel importantíssimo dos media em Portugal, mostraria como os jornalistas enquanto classe têm a qualidade e a humildade de discutir e de expôr os seus problemas na TV (como fazem aliás outros grupos profissionais) e seria uma forma também de os portugueses em geral ficarem com uma melhor imagem dos jornalistas.

14/07/2008

Saudades do tempo de Clinton e Ieltsin

George W. Bush resolveu há uns tempos atrás colocar uma linha de mísseis anti-míssil na Polónia e na República Checa. Agora, vemos que a Rússia vetou as sanções sobre o Zimbabué no Conselho de Segurança da ONU e que a Gazprom celebra mais acordos para prospecção e produção de petróleo e gás natural no Irão. O maravilhoso clima de paz e de boa disposição dos tempos de Clinton e Ieltsin, transformou-se no tempo cinzento de Bush e Putin. Em recordação dos velhos tempos, aqui deixo uma fotografia famosa. Bons tempos esses! O mundo andava bem mais seguro e próspero.

09/07/2008

Crónicas do Janeiro - Cegueira

( Crónica desta terça no Primeiro de Janeiro e agora, lida também aos Domingos à noite, na Algarve FM, no programa Lusitânia Expresso, agradecimentos ao António Murtosa )
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Para efeitos únicos desta crónica e correndo o risco de nesta premissa inicial ser pouco original, imagine o leitor que, a certa altura, no nosso país, surgiu uma epidemia de cegueira, epidemia esta que, um pouco à imagem da metáfora de Saramago (Ensaio sobre a Cegueira), consiste numa escolha de valores e de regras de vida que levem a ignorar toda a dimensão humana do outro com quem nos cruzamos diariamente, a ignorar o valor da meritocracria, o valor de dar sempre uma oportunidade a todos, o valor da existência de regras em sociedade, o valor da justiça, da solidariedade, e tantos outros que têm de existir lado a lado com a iniciativa e com a ambição de conseguir mais e melhor para si e para todos à volta, sendo que uns têm de temperar os outros para que as rodas da sociedade nos levem a algum lado em vez de simplesmente atropelar e trocidar a maioria. Claro, tudo isto cai por terra quando o primeiro descobre que, subvertendo apenas alguns destes valores, a sua vida progride enormemente ao contrário da dos outros. Uma corrupçãozinha, um favorzinho, um pequeno tráfico de influências, um ganho de audiência à custa da desgraça ou da futilidade alheia, enfim, um belo salto na carreira ou na fortuna, cometendo-se apenas um pequeno delito que não fará mal a ninguém. É talvez aí que se aloja e começa a progredir o vírus da cegueira, como o fungo na humidade. Ou talvez comece antes a cegueira, quando nos batem nos olhos, desde crianças, imagens dos telejornais, plenas de uma realidade cruel, repletas de gente que sofre: pessoas a morrer à fome em estado lastimável, guerras em directo assistidas a partir do sofá como se de partidas de futebol se tratassem, milhares de pessoas a chorar e a lamentar incêndios nas suas casas, ou terremotos, ou familiares mortos nos acidentes de viação ou de comboio, ou atentados à bomba que vitimam outros milhares todos os anos, em nome desta ou daquela causa que para nós nunca valeu nada. Talvez seja aí que começamos a ser “cegados”, a habituar-nos a ver e a não reparar, a ignorar o interior dos outros, porque realmente perante a evidência nua e crua das televisões nada podemos fazer para ajudar quem está do outro lado do écran. Da habituação ao sofrimento nos telejornais à habituação à realidade das ruas, diante dos nossos olhos, vai um curto passo. O seguinte é ignorar os concidadãos, os vizinhos, os familiares. Passa depois por ignorar o lado interior humano de todos e cada um de nós trocando o que somos por uma imagem mental que lhe toma o lugar e na qual constam alguns items de maior importância, a saber, salário estimado, marca e modelo do carro, casa onde mora, roupa que veste, título profissional, e, por fim, a quantidade de músculos, de curvas ou de gordura no corpo. Esta cegueira não é negra, é colorida, como o mar de leite da imaginação de Saramago onde as cores se fundem numa única que cega: os reclames, as revistas, as TVs, as marcas, os slogans, todos os produtos, todos os preços e, consequentemente, as nossas frustrações ou prazeres consoante aquilo que o dinheiro nos comprar. Certamente não faltará quem diga que é desta cegueira que emanam todos os problemas do nosso Portugal. E, dirão, se o problema não é maior é porque há quem não esteja cego, dê o braço e ajude a guiar os demais cegos ao seu caminho porque lá diz Saramago que há uma coisa chamada “a responsabilidade de ter olhos quando outros os perderam”.

07/07/2008

Eterna subserviência à UE?

Estamos em crise e uma parte dela são factores externos à Governação. Um deles é a supra-Governação europeia com a sua Política Agrícola Comum, o Pacto de Estabilidade e Crescimento que limita o déficit a 3% e os seus juros cada vez mais altos. No entanto, o nosso Governo actual nada reivindica, a nada se opõe que venha de Bruxelas, pelo contrário empresta até o nome de Lisboa ao Tratado mais recente do qual é um grande entusiasta. Aparentemente, em troca dos subsídios que recebemos, calaremos para sempre tudo o resto que de mal nos façam de Bruxelas e seremos sempre bem comportados e subservientes. União Europeia. O nome diz tudo, união não significa jurar eterna subserviência e bom comportamento. D. Afonso Henriques deve dar voltas no túmulo. Tanto trabalho para nunca mais depender de ninguém e agora, se as coisas continuam a evoluir neste sentido...

06/07/2008

Fotógrafo Cego

Não resisto aqui a divulgar o e-mail que recebi de um grande amigo, o Paulo Melo, que me chamou a atenção para este enigmático fotógrafo cego esloveno:

Evgen Bavcarvia horizonte artificial by Pedro on 6/29/08
É um fotógrafo esloveno, cego desde os 12 anos, que usa óculos com lentes transparentes e um espelho na lapela para compensar o olhar admirador que não pode fazer recair sobre as mulheres. Ele descreve assim a sua técnica:Every photo I take I have to have perfectly organized in my head before shooting. I put the camera at the height of my mouth and that's how I photograph people I hear talking. The autofocus helps, but I can manage without it. It's simple. I measure the distance with my hands and the rest is done by my internal desire for images. I know there are always things that escape me, but that's true of photographers who can physically see. My images are fragile; I've never seen them, but I know they exist, and some of them have touched me deeply. Acho que este "retrato com mãos" é um bom exemplo daquilo que Bavcar fala. Mais do seu trabalho pode ser visto aqui.

24/06/2008

Crónicas do Janeiro - Chegou oficialmente o Verão

E, este ano, foi preciso ser oficial para que ele realmente se materializasse no nosso clima. Paralelamente ao aumento da temperatura do ar, aconteceu que Portugal abandonou o Euro 2008 às mãos da sempre eficiente, metódica e trabalhadora Alemanha, um valente duche de água fria que poderá ser muito conveniente num dia quente de Verão mas nem por isso foi menos desagradável, como nunca o é, uma derrota da nossa selecção. Ainda assim, o duche não conseguiu acalmar todas as almas do nosso país, seria preciso talvez que fosse mais gelado, ou mais a água, sugestão essa que certamente chocaria os ambientalistas sempre muito atentos a estas coisas. A prova de que nem todos os ânimos se retemperaram é que o auto-carro que havia levado a comitiva portista a Lisboa, para disputar um jogo do campeonato nacional de hóquei, foi criminosamente incendiado, num jogo em que o FC Porto ganhou e acabou por se sagrar de novo campeão, pela sétima vez consecutiva. Assim vão os ânimos nacionais, de um lado o muito quente do outro o muito frio, principalmente se matérias relacionadas com o desporto nacional estão em questão. Enquanto isso, se os camionistas e a subida dos preços do petróleo o permitirem, os nossos governantes poderão folgar um pouco as costas e, assim, em breve, estarão também eles a fazer férias por aí, assim como os nossos desportistas, seja em Manchester ou em Madrid.Enquanto isso, num blogue que costumo visitar com frequência, da jornalista Miriam Leitão do periódico brasileiro “O Globo”, verifiquei que na China, apesar do intenso crescimento económico do país nos últimos anos, vem aumentado a desigualdade entre ricos e pobres, conforme apontam recentes pesquisas. Tirando alguns países europeus e, principalmente, os escandinavos, o tão aclamado crescimento económico arrasta muitas vezes consigo um simultâneo aumento das desigualdades sociais, dependendo do modelo de crescimento em causa. Segundo os especialistas que estudaram o assunto, o vem gerando desigualdade na distribuição de riqueza na China é o facto do modelo de crescimento económico ter sido rápido e concentrado em alguns sectores e regiões. As áreas da costa têm sido continuamente beneficiadas, seja com investimento público, seja com investimento externo, havendo também uma forte cisão entre o campo e a cidade. Por outras palavras, enquanto o modelo de crescimento de um país for rápido e concentrado em alguns sectores e regiões, a tendência é a desigualdade crescer. Haverá melhor exemplo do que Portugal nesta matéria? Quantas e quantas estatísticas teremos de ler que nos indicam sempre que a região de Lisboa e Vale do Tejo é a única em Portugal que se destaca do resto do país a nível económico e social, situando-se dentro da média europeia a 15, quando o resto do país está muito abaixo desse patamar? Está perfeitamente estudado e amplamente divulgado, a equação em causa é: desenvolvimento concentrado em certos sectores e certas regiões igual a desigualdade. Então porque é que se continua a priveligiar sempre as mesmas regiões, há tantos anos, e sempre os mesmo sectores? Para onde caminha o país se o nosso modelo de crescimento continuar a ser Lisboa e a construção? Acho que já todos sabemos.

* Retirado a partir de: http://www.oprimeirodejaneiro.pt/?op=artigo&sec=9bf31c7ff062936a96d3c8bd1f8f2ff3&subsec=&id=8bc4b7e0c67590e482249d5253dc66aa

18/06/2008

Último Papa chega à China

A editora Rye Field Publication (a division of Cite Publishing Group) vai publicar O ÚLTIMO PAPA na China.

Enquanto isso, em Portugal, pouco se ouve sobre isto a não ser algumas notas soltas pela Agência Lusa, apesar dos direitos da obra já terem sido adquiridos em lugares tão diferentes como Brasil, Indonésia, Polónia e muitos outros. Em Agosto será a vez da obra ser lançada nos E.U.A.

http://www.luismiguelrocha.com/
http://amigosdoalheio.blogs.sapo.pt/

17/06/2008

O modelo de crescimento "o litoral é que é bom, o interior que se lixe!"

Excerto do blog da Miriam (que consulto com prazer e assiduidade, bem como as suas crónicas na rádio, na CBN) abordando a origem do crescimento da desigualdade entre ricos e pobres, na China, nos últimos anos:

"A explicação dos diversos pesquisadores que estudam o assunto é que a desigualdade é resultado do modelo de crescimento: rápido e concentrado em alguns setores e regiões. As áreas da costa são beneficiadas, pois recebem mais investimentos diretos do exterior, com as exportações. E há também a forte cisão entre o campo e a cidade. Com isso, o bolo está crescendo, mas sendo pouco dividido. (Ops! Conheço essa história de algum lugar.)"

Também conheço, como português. A este modelo de crescimento também se poderia chamar "o litoral é que é bom, o interior que se lixe!". O pior é que o modelo continua a ser o mesmo ainda hoje...

10/06/2008

Sentimento comunitário adormecido (minha crónica desta terça no Janeiro)

Esta semana, um amigo de longa data que havia regressado de uma breve estadia em Cuba, contava-me o que presenciara naquele país quanto à atitude dos locais. Disse-me, sabendo que morei alguns anos no Brasil: “Eles [os Cubanos] são ainda mais simpáticos que os brasileiros!”. Secundou esta frase afirmando referir-se à enorme dimensão da prática da solidariedade entre eles. Disse-me que amigos de ocasião lhe quiseram emprestar dinheiro para entrar numa discoteca, alegando que dividiriam o custo entre eles se necessário fosse. Dando outro exemplo, contou como para telefonar vários cubanos se dirigiam a casa de um vizinho de referência que, generosamente, permitia que partilhassem o seu telefone na vizinhança. Quem, dos leitores desta crónica, já tiver ido a Cuba, provavelmente poderá comprovar estas vivências. Pela minha parte, respondi ao meu bom amigo que, no Brasil, testemunhei os dois lados desta medalha: uma realidade digamos “cubana” e outra mais semelhante ao que vejo em Portugal e em grande parte da Europa, ou seja, a individualidade a tomar conta da sociedade. Pessoas que gostam de impôr a sua individualidade aos demais, através da ostentação de riqueza, da fama ou do estatuto, frequentando este ou aquele espaço como forma de diferenciação, recusando ajudas e recusando-se a dá-las. Navegando no mar destes raciocínios, evoquei a pequena cidade de São Bento do Sul, no Estado de Santa Catarina, cidade onde vivi e que ficará para sempre no meu coração, situada no coração de um Brasil de forte influência germânica. Na altura discutia-se o referendo sobre a proibição da comercialização de armas de fogo e munições que acabou por ter lugar em Outubro de 2005. Em São Bento do Sul, a generalidade das opiniões que ouvi eram contra a proibição. Porquê? Porque a cidade ficaria então entregue unicamente à mercê da polícia, quando os habitantes pretendiam também eles próprios cuidar da sua segurança e não depender unicamente das forças policiais. O sentimento comunitário falava nitidamente mais alto. A verdade é que, naquela cidade, raramente acontecia algum crime ou assalto que merecesse figurar em páginas de jornal mas, se algo acontecia, vários habitantes estavam dispostos a pegar nas suas armas e a perseguir os bandidos. A comunidade organizava-se e defendia-se. Será interessante saber que essa cidade de cerca de 50,000 habitantes, é das mais pacatas do Brasil e assim acontece ao longo de toda aquela região de influência germânica. Recordo-me de haver uma outra cidade, chamada Pomerode, que não possuía sequer (não sei se agora possui) uma delegacia de polícia por não registar ocorrências suficientes.São apenas exemplos mas a verdade é que uma sociedade, um país, uma cidade, um bairro ou uma equipa de futebol empobrecem enormemente quando desaparece a sua mentalidade colectiva e entregam-se muito mais à mercê do seu contexto externo. Hoje em dia, poucos em Portugal pertencerão a um grupo do seu bairro ou da sua cidade. O resultado está à vista a começar pela maior sujeira, menor segurança e falta de alegria dos nossos bairros e das nossas cidades. O individualismo e a ideia de que basta olhar para nós e para a nossa família e esquecer a comunidade em que estamos inseridos empobrece todo o país. Esperemos que isso possa mudar e que as pessoas se juntem com mais frequência para fazer coisas boas em conjunto.

07/06/2008

Euro 2008 - Portugal 2, Turquia 0

Foi apenas isso, ganhámos o primeiro, nada mais. Mas que jogamos bem, jogamos. Deu gosto ver. Jogamos como uma verdadeira equipa mas a destacar alguém, teria de ser João Moutinho e Scolari. Um e outro demonstraram (uma vez mais) muita qualidade no que fazem. Fica a pergunta no ar: Será que Moutinho ainda volta ao Sporting depois do Euro?

Finalmente, é incrível pensar que o Brasil tem jogado com o Luisão do Benfica a titular enquanto nós jogamos com o Pepe mas, enfim, coisas do futebol e do Felipão que tem feito um excelente trabalho em Portugal apesar de ter de suportar tantas críticas... Talvez chegue um dia a altura do Brasil naturalizar algum português para jogar na equipa brasileira. Quem sabe?

03/06/2008

Conclusão da Autoridade da Concorrência: Não há cartelização, apenas paralelismo.

Os resultados da investigação da Autoridade da Concorrência sobre cartelização no preço dos combustíveis em Portugal são uma autêntica piada. A investigação apurou que não há cartelização mas antes algo significativamente diferente: paralelismo, duas rectas que nunca se encontram até ao infinito. De facto, os preços não se chegam a encontrar nunca porque quando um sobe, os outros também sobem mas sempre para números ligeiramente diferentes. Brilhante, esta Autoridade da Concorrência!...

Este organismo, de quem se esperava até hoje por um relatório que pudesse dizer alguma coisa que se aproveitasse, veio demonstrar que tem tanta influência e poder em matérias de cartelização no preço dos combustíveis como a ONU teve em relação à invasão do Iraque.

Pelo menos que houvesse lugar a uma multa simbólica e populista às petrolíferas...era isso o mínimo que esperava.

29/05/2008

O monstro do populismo a engordar

O barril de petróleo em 2004 estava a 40 dólares, agora está a 130. Os E.U.A. atravessam uma enorme crise, a Europa idem. A crise do sub-prime, a subida do petróleo e dos alimentos, e as altas taxas de juro fixadas pelo Banco Central Europeu para evitar a escalada da inflação não são da responsabilidade do Governo português por muito que ele seja o bode expiatório mais à mão numa altura que precisamos de bodes expiatórios e por muito que não concordemos com esta ou aquela política do Governo.
É nestas alturas que o populismo se sente como peixe na água. Porque é que a sessão de hoje no parlamento foi a mais intensa e agressiva dos úlitmos tempos? Será porque os populistas começam a vislumbrar terreno fértil e melhores dias no horizonte?
Foi no meio de um momento destes de crise mundial (maior ainda do que actual, claro) que surgiram os grandes ditadores prometendo tudo o que fosse necessário ao povo. Esperemos que a crise mundial e nacional não se agrave mas, se isso acontecer, vai ser cada vez mais fácil distinguir os populistas chamando para si as luzes da ribalta.

19/05/2008

Quando o petróleo atingia 40 dólares/barril em 2004

Descobri este artigo extremamente interessante da BBC Brasil, que se reporta a Maio de 2004:

"...Em Londres, o preço do produto chegou ao nível mais alto dos últimos 13 anos. Em Nova York, o valor do barril de petróleo passou da marca de US$ 40, que já havia sido atingida no final da semana passada. Até agora, o preço do petróleo já subiu cerca de 25% neste ano."

"...Analistas estão agora divididos entre aqueles que acreditam que os preços vão subir enquanto o verão no hemisfério norte avança, e aqueles que dizem que não há uma justificativa fundamental para que os preços permaneçam altos por mais tempo."

16/05/2008

Justine Henin abandona o ténis profissional

Um caso pouco visto no desporto. Com escassos 25 anos, Justine Henin já parece uma veterana do circuito WTA. Conta com sete títulos do Grand Slam: quatro de Roland Garros, dois do US Open e um do Open da Austrália. Agora, surge a retirada, entre falta de motivação, cansaço e vontade de viver uma nova vida, no momento em que completava 117 semanas como número 1 do ranking WTA (se alguém deveria sentir falta de motivação deveriam ser as adversárias). Isto é que é retirar-se no topo! O mundo do desporto vai sentir a sua falta como sente de todos os grandes campeões. Bonne chance Justine!

Aqui fica o vídeo da conferência de imprensa anunciando o seu abandono.

09/05/2008

Divulgação do Plano Estratégico de Habitação

Até que enfim que decidiram tomar medidas em relação ao panorama da Habitação em Portugal.

Há anos que os portugueses sabem que há construção e compra de casas novas a mais e também estão fartos de saber que há arrendamentos e reabilitações a menos. Os estudos que agora foram divulgados apenas colocam números sobre uma realidade que está à vista de todos há muito.

É uma boa notícia que, pelo menos agora, comecem a pensar em inverter esta situação. A má notícia é que isto já é por demais evidente há muitos anos e só agora que atingimos um ponto calamitoso tanto para os empresários da construção como para quem está a pagar empréstimos de habitação é que os nossos governantes parecem querer fazer alguma coisa. Durante todos estes anos foi-se deixando tranquilamente o Titanic rumar em direcção ao iceberg. Bom, mais vale tarde que nunca...

25/04/2008

Conjunto de fotografias do 25 de Abril

Aqui fica, para assinalar os 34 anos passados sobre a revolução dos cravos, um conjunto muito interessante de fotografias daquele tempo que encontrei no youtube.

Vídeo de Jô Soares entrevistando político gago - de chorar a rir!

Parte I...

... e parte II.
© Gonçalo Coelho