30/10/2008

O Salário Mínimo a 450 euros contestado

O presidente da associação das PME, Augusto Morais, veio numa declaração pública recomendar aos seus associados "que não renovem os contratos” dos trabalhadores com salário mínimo e ameaçou (julgo que não haverá outro modo de colocar a questão) com despedimentos caso o salário mínimo passe mesmo a 450 euros.

Ora parece-me que isto já foi decidido em sede própria e, francamente, estou a ficar farto dos corporativismos a qualquer preço que só atrasam o país. Agora é a vez dos patrões das PMEs. Como sabemos, em Portugal, uma grande fatia do empresariado sempre se preocupou muito mais em reduzir custos do que em investir proveitos em novas tecnologias e em criatividade. Claro que existiram várias e boas excepções a esta regra mas o presidente da associação das PME parece ser representativo das empresas ainda geridas "à moda antiga". Acontece que a Alemanha, a França ou a Espanha têm salários mínimos muito mais altos do que Portugal e são extremamente competitivas, portanto tenho a certeza que as empresas portuguesas conseguem ser competitivas com salários mínimos a 450 euros. Tenho a certeza que isso vai forçar muitos empresários a começar a repensar o velho modelo de se serivrem do capital humano intensivo a baixos custos como forma de ser competitivo mas isso só pode tornar o nosso país como um todo mais evoluído no futuro.

Como diz o Eduardo Pitta: "está em causa um modelo que amarra o país ao passado com o argumento de que é melhor haver empregos assim do que não haver empregos nenhuns." E destes empregos diz muito bem "Há uns meses, muitos portugueses terão ficado surpreendidos com o facto de 35 por cento dos pobres identificados num estudo de Alfredo Bruto da Costa viverem dos rendimentos do seu trabalho.[...]e não custa advinhar que a maioria faz parte dessa legião de assalariados que recebem 426 euros de salário mínimo."

29/10/2008

A primeira declaração com nova ortografia

Aí está a primeira declaração entre Portugal e Brasil escrita com as novas regras ortográficas.

Nele, Lula da Silva e José Sócrates, comprometem-se a "envidar esforços para promover a adoção da língua portuguesa em foros multilaterais".

26/10/2008

A compilação noticiosa do negativo

Acho que só a SIC e a TVI ainda não perceberam o ridículo da ideia de fazer um noticiário que seja essencialmente uma compilação do que de negativo acontece no mundo e no país. Até a RTP já mudou o disco e, mesmo que digam que isso possa ser por ser do Estado, prefiro assim.

Como diz o Possidónio e muito bem " Sim, morreram pessoas hoje na estrada, mas também gente escapou com vida por causa de um novo tipo de intervenção. Sim, o sistema financeiro está em dificuldades, mas também sim, houve obras sociais que foram bem sucedidas a ajudar quem mais precisava. Sim, o país é uma merda. Mas sim, o meu país tem sol e gente que insiste em fazer o bem."

É que além de só se ensinar às pessoas como se conseguem resultados maus numa série infinita de situações, já satura. Estou de acordo com o boicote, Possidónio! Aliás, já o pratico. E também confesso estar um pouco farto de ver sempre as mesmas caras atrás das câmaras a comentar e a discutir tudo... fico contente quando vejo uma cara nova nesses papéis, uma lufada de ar fresco! Não digo que se erradicasse todos os que sempre aparecem mas façam um esforço por convidar gente nova para discutir os problemas do país e do mundo. Queremos ouvir mais opiniões.

25/10/2008

Apresentação do Poker no Porto

O essencial sobre a apresentação do Poker que decorreu hoje na Livraria Latina está todo aqui brilhantemente contado.

20/10/2008

Burn After Reading

Por vezes sabe muito bem ver destes filmes, simplesmente diferentes. Um argumento como só os imãos Cohen conseguem ser suficientement loucos para escrever e para realizar. As interpretações de Brad Pitt, George Clooney, Frances McDormand e John Malkovich fazem o resto. E, contudo, é um filme simples. Gostei.

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13/10/2008

Diferenças entre bancos e contribuintes

As pessoas quando precisam de dinheiro vão ao banco mendigar um empréstimo e esperam o tempo que fôr preciso por todas as burocracias, os bancos quando precisam de dinheiro vão buscá-lo ao bolso dos contribuintes e dizem que é urgente, não há tempo a perder. Nem referendos houve para consultar europeus ou americanos, foi-se logo buscar o dinheiro para os pobres dos bancos em falência.

Nunca veremos estes milhões distribuídos pelo povo!

De tanto em tanto tempo, vem um dia em que parece que os mercados gritam em uníssono: "Acabou a crise!". Hoje foi um desses dias sublinhado pelo maior ganho de pontos no Dow Jones de sempre. Parece que a Europa salvou o dia com a sua fabulosa ideia de ser fiadora dos bancos caídos em desgraça e de os nacionalizar com a ideia de que é o contribuinte que está a investir neles para um dia mais tarde os vender mais caros.

Duvido que o contribuinte algum dia veja a cor desses ganhos. De qualquer forma as perdas chegarão com certeza mais depressa do que os ganhos. É sempre assim. E se tudo o resto falhar, se os grandes cérebros do mundo financeiro mundial se tornarem apenas génios na medida extrema da sau ganância, então nesse caso vai-se ao bolso do Zé Povinho sugar-lhe um pouco mais de dinheiro.

Para quando um plano para resolver os problemas da economia real, para quando um plano de tantos milhões para que o povo deste mundo viva todo melhor? Já ouvi dizer que o valor total do Plano Paulson é igual ao de distribuir 14,000 dólares por cada americano. O valor total agora falado no Plano europeu ao que parece é maior do que isso. Arrisco dizer que nunca veremos um valor desse tipo algum dia ser distribuído pelos europeus seja em que situação fôr, nem que estejamos todos a morrer à fome.

07/10/2008

Camp Bondsteel: os americanos no Kosovo

Com um nome que parece saído de um filme do James Bond, Camp Bondsteel, base americana no Kosovo já chamada de versão mais pequena de Guantânamo, está lá no Kosovo, no centro das atenções. O Carlos Narciso mostra vários pormenores interessantíssimos sobre esta base americana caríssima, como estes que aqui cito:

"Camp Bondsteel é a prova de que os EUA não deverão sair tão cedo do Kosovo. A construção daquela base custou uma fortuna."

"São centenas de hectares, de aquartelamentos, lojas, cinemas, ginásios, restaurantes (entre os quais um Burger King), oficinas, pistas de aviação para helicópteros e aviões, campos de tiro, estabelecimento prisional também, segundo consta, whatever..."

Escusado será dizer que sou mais um dos decepcionados com o recente reconhecimento da independência do Kosovo por parte do Governo português. É isto a NATO. Apoio incondicional aos objectivos geopolíticos dos Estados Unidos em troca do seu apoio militar ou talvez seja apenas em troca de não o ter como inimigo.

03/10/2008

Orquestra toca 5ª Sinfonia de Beethoven no Metro do Porto

Aqui está o artigo completo. O Porto precisa de mais destas iniciativas.

02/10/2008

Literatura Americana vs Literatura Europeia segundo a Fundação Nobel

Tenho tendência a achar muito disparatadas quaisquer comparações deste modo tão generalista, americanos versus europeus, ou chineses versus russos, etc. Mas, seja como fôr, essas comparações vão sempre existir, tendo por base uma mera comparação de estereótipos que pouco serve o assunto em causa. O resultado disso é que, sem nada fazer, é-se imediatamente rotulado à priori, por ser desta ou daquela nacionalidade, o que muitas vezes resulta em discriminações e até desastres humanitários.

Desta vez é o membro principal do júri do Prémio Nobel, Horace Engdahl a fazê-lo. Diz o senhor que não é coincidência nenhuma que a maioria dos prémio nobéis fiquem para escritores europeus já que a literatura americana ainda está muito longe do nível da literatura europeia (pois o facto de ser uma Academia Europeia também me parece que pode pesar e muito na dispersão geográfica dos prémios).

O estereótipo que se pretende aqui alimentar é que os americanos são ignorantes e os europeus é que são os verdadeiros intelectuais deste mundo. Diga-se de passagem que esse estereótipo já vingou entre grande parte dos europeus. Favorece aquele sentimento de que podemos não ser os mais ricos ou os mais avançados mas somos ainda os mais intelectuais, os mais iluminados. Isso conforta uma certa franja de europeus elitistas e garante-lhes o seu espaço, de onde podem assim ditar quem é que é bom ou mau escritor, um poder que lhes agrada.

Aqui ficam os comentários do Sr. Engdahl (retirados deste artigo da Associated Press):

Speaking generally about American literature, however, he said U.S. writers are "too sensitive to trends in their own mass culture," dragging down the quality of their work.

"The U.S. is too isolated, too insular. They don't translate enough and don't really participate in the big dialogue of literature," Engdahl said. "That ignorance is restraining."

29/09/2008

O pacotão do Tio Sam furou - pormenores da democracia americana

A criação de uma empresa pública que absorva os podres do sistema financeiro americano foi para já recusada no senado. E para bem dos americanos, que pelo menos para já sabem que não vão pagar os erros dos bancos que foram demasiado gananciosos.

Já a democracia americana ficou transformada num triste espectáculo e ficou bem patente como funciona. Cada senador votou, como lhe competia, sim ou não ao pacotão. No final do tempo estipulado, fez-se a contagem e, quando se esperava que tudo estivesse terminado, quando os votos estavam já todos contados, surgiu um período pós-voto inacreditável, que mais parecia digno de uma ditadura e que consiste em pressionar mentalmente os votantes da facção ganhadora a mudar o seu voto, com todo o tipo de argumentos que entenderem. Pelo que dizia o comentador da CBS, uma das estratégias era fazer ver aos democratas que votaram pelo não que estavam a votar contra a maioria do seu partido e em que situação arriscada se estavam a colocar dentro do seu próprio grupo político. Outra estratégia consistia em fazer ver aos partidários do não como podiam eles arriscar ser eles os culpados das enormes perdas de Wall Street que iriam ocorrer se o não vencesse. Grupos de partidários do sim, seleccionaram um senador que entenderam que houvesse votado no não e partiam com esta pressão mental inaceitável pós-voto para cima dele em bandos. Enfim, ficou-se a saber que depois do voto, na democracia americana, os votantes ficam à mercê dos ataques dos demais durante um tempo. Estranha forma de democracia onde as coisas não se ficam pelo voto. Já tinhamos visto que também não é necessariamente o candidato mais votado no país aquele que se torna presidente, agora sabemos do que ocorre no senado a seguir à contagem dos votos.

A Arte pela Escrita

É com prazer que tomo parte juntamente com um conjunto vasto de outros autores na Colectânea A Arte pela Escrita.

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São 37 autores, no total, oriundos do Minho ao Algarve, passando pelas regiões autónomas e pelo Brasil. Uma montra do que, em prosa e poesia, se vai fazendo em língua portuguesa.

O lançamento acontece no dia 4 de Outubro, pelas 14h30 no Clube Literário do Porto.

25/09/2008

Contornos de Guerra Fria

Se os americanos resolveram colocar mísseis na Polónia voltados para a Rússia (alegando ser uma atitude de defesa) agora chegou a oportunidade da Rússia contra-atacar através da Venezuela. E resta saber quanto tempo mais os americanos a braços com uma enorme crise, falando em planos de 700 biliões de dólares para recuperar a economia, como conseguirão eles continuar a manter as suas estruturas militares com a mesma abrangência que têm tido pelo mundo fora. O déficit americano não é poço sem fundo com certeza.

22/09/2008

O Pacotão do Tio Sam (2)

As perdas são nacionalizadas, os ganhos são privatizados. É o que se ouve com frequência sobre o que está a acontecer em Wall Street.

O que também se ouve é que o socialismo está a tomar conta dos E.U.A. com as crescentes nacionalizações e intervenções do Governo na economia americana. Será isto uma espécie de pequena vitória moral dos russos anos depois de se pensar que tinham perdido a guerra fria? Cá para mim, acho que nesta altura do campeonato não há ideologia nenhuma que resista, só uma vontade de salvar quem investiu mal e com demasiada ganância alegando que não o fazer é deixar cair o apocalipse sobre os americanos.

Enquanto isso o que mais parece estar a subir com o advento do "pacotão" é o petróleo, a subir 20%. Como as petrolíferas são sempre mais rápidas a subir do que a descer preços, não me admiraria nada ver ainda esta semana uma valente subida na gasolina e no gasóleo.

O Pacotão do Tio Sam

Os republicanos propõem o "pacotão" para salvar a economia americana que, segundo artigos recentes, pode ascender a 1 trilião de dólares. Tudo para comprar títulos podres com dinheiro do Tio Sam, ou seja, dos contribuintes americanos. É isso ou o apocalipse, dizem os republicanos. No pacote, para já, não há um tostão para o cidadão americano em sérias dificuldades embora os democratas demonstrem vontade de o fazer.

O interessante é que o líder desta proposta, o secretário do tesouro Henry Paulson, o equivalente ao Ministro das Finanças americano, com uma fortuna avaliada em torno de $700 milhões foi CEO do Goldman Sachs, um desses bancos de investimento que agora o Tio Sam irá ajudar, e de lá transitou para secretário do tesouro.

Tudo isto nas vésperas de eleições.

17/09/2008

Tributo a Richard Wright

A Richard Wright, teclista e membro fundador dos Pink Floyd, este vídeo em sua homenagem que encontrei no Youtube. Ao ouvir uma vez mais esta grande música veio-me isto à ideia: o homem tem tempo limitado nesta Terra mas a sua obra não.

Os preços dos combustíveis...abusos

As petrolíferas portuguesas andam a abusar. Todas as semanas têm uma razão, um trunfo qualquer na manga para evitar descer os preços dos combustíveis e, inclusivamente subi-los como acontece hoje.

Se calhar (e isto é um impressão meramente pessoal) estão a medir mal o poder que têm sobre os consumidores...é só uma impressão, mas estes abusos, como acontece frequentemente a quem abusa, podem acarretar consequências. Parece-me que a continarem as coisas assim, haverá greves. Hoje, por exemplo, desceram o gasóleo e subiram a gasolina. Será que foi porque os consumidores do gasóleo, são mais organizados do que os utilizadores da gasolina? Será que as manifestações e greves de transportadoras ou dos agricultores estão a produzir efeitos enquanto que o facto de não haver manifestações civis contra os preços das gasolinas, importa? Seja como fôr, a continuar assim, acho que lá virá o tempo das manifestações gerais contra os actuais preços impostos pelas petrolíferas.

12/09/2008

Insultos de Hugo Chávez

Já nos habituamos a ver Hugo Chavez insultar George Bush mas, agora, ultrapassou as marcas ao falar em "yanquis de mierda" e ao mandá-los "al carajo cien veces". Incita até a um certo nível à instauração de um potencial xenofobismo e a um disparatado confronto entre americanos e venezuelanos espalhados por esse mundo. O mínimo que se pede a um político é que saiba distinguir os povos dos seus governantes e que não os ponha todos no mesmo saco ao fazer declarações públicas. No caso, o mínimo que se pede ao Presidente Venezuelano é que saiba a diferença entre George Bush e cada um dos americanos.

Pergunta: será que os Estados Unidos vão continuar a comprar petróleo à Venezuela como têm feito? Isso vai mostrar ao mundo até que ponto os americanos estão desesperados pelo petróleo...

07/09/2008

Aqui fica uma dica de uma optima ferramenta que permite publicar mensagens no blogue (especialmente boa para quem tem mais de um blogue para gerir): w.bloggar.Aqui fica o site que consultei e que bem me informou: http://pontosapo.com/2007/12/01/publicar-um-blog-usando-ferramentas/

29/08/2008

Crise no Cáucaso

As coisas estão a aquecer.

Apesar do modo tendencioso como me parece que a Crise do Cáucaso é apresentada às pessoas aqui no Ocidente, ainda não me convenci que os russos é que são aqui declaradamente os maus da fita e os EUA e a UE é que são os bons. Que necessidade havia da Geórgia atacar a Ossétia do Sul e a Abecázia neste momento? Que papel tiveram os EUA no incentivo dessa acção? Que necessidade havia de colocar mísseis na Polónia voltados para à Rússia, ditos anti-misséis mas que obviamente a Rússia considera ameaçadores? Será que alguem aqui em Portugal achava bem algum dia serem colocados mísseis em Espanha voltados para Portugal, mesmo que fossem chamados anti-mísseis?
Por estas razões acho que a Rússia tem sido estupidamente provocada nos últimos tempos. É como quem anda a provocar constantemente um elefante até que um dia ele se irrita e toma uma atitude.
Mais, o facto da Rússia reconhecer a independência da Ossétia e da Abecázia só veio pôr a nu a hipocrisia da UE e dos EUA ao ter reconhecido o Kosovo na altura e não fazer agora o mesmo. Foi genial da parte dos russos.

13/08/2008

Guerra Rússia-Geórgia: Fantochadas da geopolítica mundial


Parece-me que quem disparou desta feita o primeiro tiro foi a Geórgia apesar de, obviamente, a história ter antecedentes e não poderem estes actos actuais serem apreciados isoladamente na história. Nunca o podem, na verdade. Porém, como a geopolítica internacional está revestida de autênticas fantochadas, a Rússia pode perfeitamente invocar estar a empreender uma guerra preventiva, ou seja, guerra com o intuito de prevenir ataques futuros por parte da Geórgia. O precedente já foi invocado por Israel e pelos EUA inúmeras vezes.

Nada disto, porém importa. A única verdade é que a Rússia quer impôr respeito e a sua influência na Geórgia, bem como no resto do seu perímetro geográfico. O resto é a fantochada de que se revestem as guerras hoje em dia.

Outra fantochada enorme são os Peacekeapers. Agora fala-se de Peacekeapers russos existentes na Geórgia, capacetes azuis com o aval da ONU. Parece que as guerras se burocratizaram hoje em dia. Não há mais soldados e ataques de guerra, mas Peacekeapers e manobras de manutenção da paz. Neste início de séc.XXI as palavras talvez estejam demasiado gastas e prefere-se renovar o seu sentido usando o campo lexical da paz para se falar da guerra.

Como sempre, allheadas a estas fantochadas geopolíticas, estão as vítimas em sofrimento, neste caso os georgianos civis, cujo maior azar é estarem metidos entre interesses russos e americanos e, com um governo, que ao fazer o ataque disparatado que fez, colocou o seu povo, negligentemente e com despeito, em altíssima situação de risco.

A falsa cantora na abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim

Uma cantou e a outra é que apareceu perante as câmaras porque, para que a cerimónia fosse perfeita, era preciso que a voz nas imagens viesse de uma criança bela e mais fotogénica. A imagem da cantora original não foi considerada adequada para um evento de tão grande importância.

É imperioso demonstrar-se que "as nossas crianças" são todas belas e perfeitas. E atenção, isto não me parece que seja problema único da China. Os países querem mostrar ridiculamente, nas cerimónias oficiais, que só têm caras e corpos perfeitos porque é, claro, vivemos num mundo que prefere comer as maçãs mais enceradas e não as mais saborosas. Até as crianças convém que nasçam "enceradas". O problema é que este não é um mundo perfeito, é um mundo com defeitos e, se rejeitarmos o defeito, estaremos a rejeitar-nos a nós próprios como seres humanos, cuja essência é sermos carregados de defeitos.

30/07/2008

O véu (crónica de 22/07/2008)

A Turquia, país onde o embate civilizacional é grande e onde Estado e religião se encontram separados desde os tempos de Ataturk é, provavelmente, o país onde Este e Oeste do mundo terão de dar a primeira grande prova a todo o mundo de que podem conviver lado a lado debaixo de uma única identidade nacional moderada e própsera. Dito isto, uma grande parte dos turcos moderados, receia acima de tudo que algum dia se possa regressar aos dias do Império Otomano ou a qualquer tipo de estrutura civilizacional que se pareça ou incline minimamente para os extremos de países como a Arábia Saudita ou o Irão onde, por exemplo, qualquer mulher que saia à rua tem está obrigada a vestir a burqa ou o véu, tudo depende se quer ou não cobrir também os olhos. No âmbito das suas múltiplas reformas, Ataturk alterou a face do país e o véu foi visto como um obstáculo à secularização e à modernização. Hoje em dia, véus e burqas não são perimitidos em locais públicos na Turquia como univesidades ou tribunais, de modo a impedir impreterivelmente o regresso aos anos do islão obscuro. Em 1998, foi banida uma estudante turca da Universidade de Istanbul precisamente porque os usou. Em 2000, há o caso de outra estudante condenada a seis meses de prisão por “obstruir a educação dos outros” ao ter usado véu nos exames finais. Já no decorrer deste ano de 2008, o parlamento turco passou uma emenda à constituição que permitia a utilização de véus nas universidades com o argumento de que muitas mulheres estariam a fugir às universidades. Meses depois, o Tribunal Constitucional da Turquia deu voz aos muitos turcos que se haviam demonstrado contra a emenda e, com base na necessidade suprema de laicização, o dito tribunal retirou a emenda.

Entretanto, na Bélgica, os municípios são livres de impôr a proibição, vários baniram já o uso das burqas e véus ou decidiram cobrar multa a quem os use. O argumento aí é o de que a referida peça de vestuário causa insegurança e intimidação nas ruas ao encobrir e impossibilitar a total visão do rosto da pessoa. Já em França, os argumentos que levam à proibição são que deve ser preservado o valor da laicização e também de que as burqas e véus são símbolos de subserviência das mulheres não coincidentes com a cultura francesa. Enquanto a polémica avança, a vaga parece crescer no sentido da proibição da utilização de véus em locais públicos por toda a Europa e, não seria de admirar que também a Portugal chegasse essa proibição, tal como chegou a de fumar ou a despenalização do aborto. Como sempre, o nosso bloco central apoiará o que se fôr fazendo por toda a Europa e quem discordar será um radical, tendo que contar apenas com o apoio do Bloco de Esquerda. No entanto, aqui fica desde já um relato engraçado que encontrei de uma norte-americana que afirma ter adorado a obrigatoriedade de usar o véu na Arábia Saudita sempre que saía de casa. Diz que andando toda coberta da cabeça aos pés se sentia mais igual às demais e sentia que, finalmente, a sua carreira profissional deixava de assentar, fosse o que fosse, nos seus atributos físicos como acontece nas sociedades Ocidentais.

15/07/2008

10 questões urgentes a debater sobre os media em Portugal

Está a tardar um grande debate sobre o jornalismo em Portugal e sobre o papel dos media. Um debate aberto a todos os portugueses, talvez no formato Prós e Contras ou noutro semelhante. Aqui ficam 10 questões que urge debater:

1. Qual o papel da investigação jornalística nos dias de hoje? Porque há tão poucas peças de investigação jornalística hoje em dia?
2. Porque se repetem tanto as notícias de uns canais para os outros e se multiplicam tanto as opiniões?
3. Qual o papel pedagógico que os media devem assumir nos dias de hoje no nosso país?
4. Porque se encontra tão reduzido esse papel nos telejornais e nas grelhas programáticas actuais? Como combater esses problemas?
5. Qual o lugar do sensacionalismo? Aonde devem situar-se os limites?
6. Até que ponto o jornalismo de hoje vende o medo, o pessimismo ou o cepticismo e como pode isto ser combatido?
7. Poderá a classe jornalística combater as constantes devassas do segredo de justiça que mancham a imagem da Justiça Portuguesa? Que medidas pode e deve tomar?
8. Como deve o jornalismo encarar o futebol?
9. Qual o papel da televisão pública e qual o das privadas?
10. Quais devem ser as linhas fundamentais para um jornalismo de qualidade no século XXI?

Este debate seria benéfico para todo o país dado o papel importantíssimo dos media em Portugal, mostraria como os jornalistas enquanto classe têm a qualidade e a humildade de discutir e de expôr os seus problemas na TV (como fazem aliás outros grupos profissionais) e seria uma forma também de os portugueses em geral ficarem com uma melhor imagem dos jornalistas.

14/07/2008

Saudades do tempo de Clinton e Ieltsin

George W. Bush resolveu há uns tempos atrás colocar uma linha de mísseis anti-míssil na Polónia e na República Checa. Agora, vemos que a Rússia vetou as sanções sobre o Zimbabué no Conselho de Segurança da ONU e que a Gazprom celebra mais acordos para prospecção e produção de petróleo e gás natural no Irão. O maravilhoso clima de paz e de boa disposição dos tempos de Clinton e Ieltsin, transformou-se no tempo cinzento de Bush e Putin. Em recordação dos velhos tempos, aqui deixo uma fotografia famosa. Bons tempos esses! O mundo andava bem mais seguro e próspero.

09/07/2008

Crónicas do Janeiro - Cegueira

( Crónica desta terça no Primeiro de Janeiro e agora, lida também aos Domingos à noite, na Algarve FM, no programa Lusitânia Expresso, agradecimentos ao António Murtosa )
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Para efeitos únicos desta crónica e correndo o risco de nesta premissa inicial ser pouco original, imagine o leitor que, a certa altura, no nosso país, surgiu uma epidemia de cegueira, epidemia esta que, um pouco à imagem da metáfora de Saramago (Ensaio sobre a Cegueira), consiste numa escolha de valores e de regras de vida que levem a ignorar toda a dimensão humana do outro com quem nos cruzamos diariamente, a ignorar o valor da meritocracria, o valor de dar sempre uma oportunidade a todos, o valor da existência de regras em sociedade, o valor da justiça, da solidariedade, e tantos outros que têm de existir lado a lado com a iniciativa e com a ambição de conseguir mais e melhor para si e para todos à volta, sendo que uns têm de temperar os outros para que as rodas da sociedade nos levem a algum lado em vez de simplesmente atropelar e trocidar a maioria. Claro, tudo isto cai por terra quando o primeiro descobre que, subvertendo apenas alguns destes valores, a sua vida progride enormemente ao contrário da dos outros. Uma corrupçãozinha, um favorzinho, um pequeno tráfico de influências, um ganho de audiência à custa da desgraça ou da futilidade alheia, enfim, um belo salto na carreira ou na fortuna, cometendo-se apenas um pequeno delito que não fará mal a ninguém. É talvez aí que se aloja e começa a progredir o vírus da cegueira, como o fungo na humidade. Ou talvez comece antes a cegueira, quando nos batem nos olhos, desde crianças, imagens dos telejornais, plenas de uma realidade cruel, repletas de gente que sofre: pessoas a morrer à fome em estado lastimável, guerras em directo assistidas a partir do sofá como se de partidas de futebol se tratassem, milhares de pessoas a chorar e a lamentar incêndios nas suas casas, ou terremotos, ou familiares mortos nos acidentes de viação ou de comboio, ou atentados à bomba que vitimam outros milhares todos os anos, em nome desta ou daquela causa que para nós nunca valeu nada. Talvez seja aí que começamos a ser “cegados”, a habituar-nos a ver e a não reparar, a ignorar o interior dos outros, porque realmente perante a evidência nua e crua das televisões nada podemos fazer para ajudar quem está do outro lado do écran. Da habituação ao sofrimento nos telejornais à habituação à realidade das ruas, diante dos nossos olhos, vai um curto passo. O seguinte é ignorar os concidadãos, os vizinhos, os familiares. Passa depois por ignorar o lado interior humano de todos e cada um de nós trocando o que somos por uma imagem mental que lhe toma o lugar e na qual constam alguns items de maior importância, a saber, salário estimado, marca e modelo do carro, casa onde mora, roupa que veste, título profissional, e, por fim, a quantidade de músculos, de curvas ou de gordura no corpo. Esta cegueira não é negra, é colorida, como o mar de leite da imaginação de Saramago onde as cores se fundem numa única que cega: os reclames, as revistas, as TVs, as marcas, os slogans, todos os produtos, todos os preços e, consequentemente, as nossas frustrações ou prazeres consoante aquilo que o dinheiro nos comprar. Certamente não faltará quem diga que é desta cegueira que emanam todos os problemas do nosso Portugal. E, dirão, se o problema não é maior é porque há quem não esteja cego, dê o braço e ajude a guiar os demais cegos ao seu caminho porque lá diz Saramago que há uma coisa chamada “a responsabilidade de ter olhos quando outros os perderam”.

07/07/2008

Eterna subserviência à UE?

Estamos em crise e uma parte dela são factores externos à Governação. Um deles é a supra-Governação europeia com a sua Política Agrícola Comum, o Pacto de Estabilidade e Crescimento que limita o déficit a 3% e os seus juros cada vez mais altos. No entanto, o nosso Governo actual nada reivindica, a nada se opõe que venha de Bruxelas, pelo contrário empresta até o nome de Lisboa ao Tratado mais recente do qual é um grande entusiasta. Aparentemente, em troca dos subsídios que recebemos, calaremos para sempre tudo o resto que de mal nos façam de Bruxelas e seremos sempre bem comportados e subservientes. União Europeia. O nome diz tudo, união não significa jurar eterna subserviência e bom comportamento. D. Afonso Henriques deve dar voltas no túmulo. Tanto trabalho para nunca mais depender de ninguém e agora, se as coisas continuam a evoluir neste sentido...

06/07/2008

Fotógrafo Cego

Não resisto aqui a divulgar o e-mail que recebi de um grande amigo, o Paulo Melo, que me chamou a atenção para este enigmático fotógrafo cego esloveno:

Evgen Bavcarvia horizonte artificial by Pedro on 6/29/08
É um fotógrafo esloveno, cego desde os 12 anos, que usa óculos com lentes transparentes e um espelho na lapela para compensar o olhar admirador que não pode fazer recair sobre as mulheres. Ele descreve assim a sua técnica:Every photo I take I have to have perfectly organized in my head before shooting. I put the camera at the height of my mouth and that's how I photograph people I hear talking. The autofocus helps, but I can manage without it. It's simple. I measure the distance with my hands and the rest is done by my internal desire for images. I know there are always things that escape me, but that's true of photographers who can physically see. My images are fragile; I've never seen them, but I know they exist, and some of them have touched me deeply. Acho que este "retrato com mãos" é um bom exemplo daquilo que Bavcar fala. Mais do seu trabalho pode ser visto aqui.
© Gonçalo Coelho