09/07/2008

Crónicas do Janeiro - Cegueira

( Crónica desta terça no Primeiro de Janeiro e agora, lida também aos Domingos à noite, na Algarve FM, no programa Lusitânia Expresso, agradecimentos ao António Murtosa )
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Para efeitos únicos desta crónica e correndo o risco de nesta premissa inicial ser pouco original, imagine o leitor que, a certa altura, no nosso país, surgiu uma epidemia de cegueira, epidemia esta que, um pouco à imagem da metáfora de Saramago (Ensaio sobre a Cegueira), consiste numa escolha de valores e de regras de vida que levem a ignorar toda a dimensão humana do outro com quem nos cruzamos diariamente, a ignorar o valor da meritocracria, o valor de dar sempre uma oportunidade a todos, o valor da existência de regras em sociedade, o valor da justiça, da solidariedade, e tantos outros que têm de existir lado a lado com a iniciativa e com a ambição de conseguir mais e melhor para si e para todos à volta, sendo que uns têm de temperar os outros para que as rodas da sociedade nos levem a algum lado em vez de simplesmente atropelar e trocidar a maioria. Claro, tudo isto cai por terra quando o primeiro descobre que, subvertendo apenas alguns destes valores, a sua vida progride enormemente ao contrário da dos outros. Uma corrupçãozinha, um favorzinho, um pequeno tráfico de influências, um ganho de audiência à custa da desgraça ou da futilidade alheia, enfim, um belo salto na carreira ou na fortuna, cometendo-se apenas um pequeno delito que não fará mal a ninguém. É talvez aí que se aloja e começa a progredir o vírus da cegueira, como o fungo na humidade. Ou talvez comece antes a cegueira, quando nos batem nos olhos, desde crianças, imagens dos telejornais, plenas de uma realidade cruel, repletas de gente que sofre: pessoas a morrer à fome em estado lastimável, guerras em directo assistidas a partir do sofá como se de partidas de futebol se tratassem, milhares de pessoas a chorar e a lamentar incêndios nas suas casas, ou terremotos, ou familiares mortos nos acidentes de viação ou de comboio, ou atentados à bomba que vitimam outros milhares todos os anos, em nome desta ou daquela causa que para nós nunca valeu nada. Talvez seja aí que começamos a ser “cegados”, a habituar-nos a ver e a não reparar, a ignorar o interior dos outros, porque realmente perante a evidência nua e crua das televisões nada podemos fazer para ajudar quem está do outro lado do écran. Da habituação ao sofrimento nos telejornais à habituação à realidade das ruas, diante dos nossos olhos, vai um curto passo. O seguinte é ignorar os concidadãos, os vizinhos, os familiares. Passa depois por ignorar o lado interior humano de todos e cada um de nós trocando o que somos por uma imagem mental que lhe toma o lugar e na qual constam alguns items de maior importância, a saber, salário estimado, marca e modelo do carro, casa onde mora, roupa que veste, título profissional, e, por fim, a quantidade de músculos, de curvas ou de gordura no corpo. Esta cegueira não é negra, é colorida, como o mar de leite da imaginação de Saramago onde as cores se fundem numa única que cega: os reclames, as revistas, as TVs, as marcas, os slogans, todos os produtos, todos os preços e, consequentemente, as nossas frustrações ou prazeres consoante aquilo que o dinheiro nos comprar. Certamente não faltará quem diga que é desta cegueira que emanam todos os problemas do nosso Portugal. E, dirão, se o problema não é maior é porque há quem não esteja cego, dê o braço e ajude a guiar os demais cegos ao seu caminho porque lá diz Saramago que há uma coisa chamada “a responsabilidade de ter olhos quando outros os perderam”.

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© Gonçalo Coelho